Cobre: A Corrida do Metal Vermelho em Meio a um Aperto Estrutural e Demanda Crescente

O mercado global de cobre está vivenciando um período de intenso aperto estrutural, no qual a oferta se mostra incapaz de acompanhar o ritmo acelerado da demanda. Essa dinâmica, que se reflete em preços em ascensão, não é um fenômeno conjuntural passageiro, mas sim o resultado de um cenário complexo moldado por anos de subinvestimento, desafios operacionais e uma demanda cada vez mais impulsionada por megatendências globais, agravada por grave crise em 3 ativos relevantes.

O Aperto Estrutural no Mercado de Cobre

Analistas de peso de instituições como BMO (Banco de Montreal), NBF (National Bank Financial do Canadá) e o Blackrock convergem para a visão de que o descompasso entre oferta e demanda de cobre é profundo, persistente e duradouro. Esse cenário é multifacetado, com raízes em:

  • Subinvestimento Crônico: Décadas de investimento insuficiente em novas minas e infraestrutura de extração.
  • Queda nos Teores de Minério: As jazidas existentes apresentam teores de cobre progressivamente mais baixos, exigindo maior volume de minério para a mesma quantidade de metal.
  • Complexidade Técnica e Regulatória: Novos projetos enfrentam barreiras crescentes em termos de engenharia e aprovações ambientais e sociais.
  • Riscos Geopolíticos Elevados: Instabilidade em regiões produtoras e nacionalismo de recursos impactam a previsibilidade da oferta.

A oferta continua sendo o principal fator de sustentação para os preços elevados. A NBF projeta um déficit de aproximadamente 407 mil toneladas (kt) em 2026, indicando que a escassez não é uma preocupação distante. A BMO, por sua vez, destaca que interrupções significativas em ativos-chave, a lentidão esperada para a plena operação de novas minas (os chamados “ramp-ups”) e Blackrock aponta que as incertezas em torno de grandes projetos, como Cobre Panamá, mantêm o mercado estruturalmente comprimido. A necessidade de adicionar cerca de 4,9 milhões de toneladas (Mt) de nova oferta ao longo da próxima década é uma meta ambiciosa que só poderá ser atingida com preços estruturalmente mais altos, capazes de justificar os elevados investimentos e riscos.

A gravidade dessa situação é sublinhada pela paralisação ou problemas de produção em três dos maiores projetos de cobre do mundo – Grasberg, Komoa-Kakula e Cobre Panamá. Juntas, essas minas representavam 1,6 milhão de toneladas de capacidade de produção em 2024, ou cerca de 7% da oferta global. Em um mercado já apertado, a disrupção em ativos dessa magnitude é um catalisador potente para a escalada dos preços, como evidenciado pela alta de aproximadamente 5% do cobre no último mês, um movimento que muitos analistas consideram insuficiente dada a escala dos problemas de oferta.

Por Que o Cobre É Tão Demandado e Sua Demanda Está em Alta?

O cobre, carinhosamente apelidado de “metal vermelho”, é uma das matérias-primas mais essenciais para a economia global moderna, e sua demanda é descrita como resiliente e cada vez mais estrutural. A razão para essa demanda incessante reside em suas propriedades únicas – alta condutividade elétrica e térmica, maleabilidade, ductilidade e resistência à corrosão – que o tornam insubstituível em inúmeras aplicações.

Além da eletrificação tradicional, que por si só já exige vastas quantidades de cobre para fiação e componentes eletrônicos, novos vetores de demanda surgem com força, consolidando a posição do cobre como um metal estratégico para o futuro:

  1. Transição Energética e Eletrificação: A busca por fontes de energia renováveis (solar, eólica) e a proliferação de veículos elétricos são grandes motores da demanda. Esses sistemas dependem intensamente do cobre para a condução de eletricidade, baterias, motores e infraestrutura de carregamento.
  2. Redes Elétricas Modernas: O investimento massivo necessário para modernizar e expandir as redes de transmissão e distribuição de energia em todo o mundo, adaptando-as às novas demandas e à integração de energias renováveis, requer quantidades significativas de cobre.
  3. Data Centers e Inteligência Artificial (IA): A era digital, impulsionada pelo crescimento exponencial da IA e do volume de dados, demanda uma infraestrutura de computação robusta. Data centers consomem vastas quantidades de energia e, consequentemente, dependem de cobre para seus sistemas de fiação, refrigeração e distribuição de energia. A NBF estima que a demanda associada a data centers e IA pode atingir até 2,0 Mt/ano no longo prazo, um volume impressionante que adiciona uma camada de urgência à dinâmica de oferta.

Embora existam riscos cíclicos de curto prazo, como as incertezas econômicas na China e seu impacto no setor imobiliário, nenhuma das análises atuais identifica sinais claros de destruição estrutural da demanda por cobre. Isso significa que, independentemente de flutuações econômicas pontuais, as megatendências globais continuarão a impulsionar a necessidade do metal.

O papel dos Estados Unidos na formação de preços globais também ganhou destaque, com arbitragens entre as bolsas de Chicago (CME) e Londres (LME) drenando cobre físico de outros mercados. A China, tradicionalmente um grande consumidor, encontra-se cada vez mais na posição de “price taker”, enfrentando prêmios elevados e restrições de disponibilidade. O mercado físico global segue “extremamente apertado”, e soluções paliativas, como o uso de sucata (“scrap”), não se mostram estruturais devido a limitações logísticas, regulatórias e tendências de nacionalismo do scrap.

Perspectivas de Preço e Importância Estratégica

Diante do cenário de oferta restrita e demanda robusta, o cobre entra em 2026 consolidando sua posição como um metal crítico estratégico. A NBF revisou sua projeção de preço de curto prazo para US$ 5,25/lb e elevou o preço de incentivo de longo prazo para US$ 4,40/lb. Essa revisão reflete fatores como a inflação dos custos de capital (CAPEX), o maior risco de execução dos projetos e a necessidade de garantir um retorno adequado sobre o capital investido para atrair novos investimentos. A BMO, por sua vez, vê uma assimetria positiva de preços no curto e médio prazo, enquanto Olivia Markham da Blackrock enfatiza a sensibilidade do mercado a eventos geopolíticos e políticas comerciais.

Nesse contexto, ativos de grande escala, bem localizados, com baixo risco geopolítico e potencial de crescimento tornam-se progressivamente mais valiosos. Essa realidade favorece movimentos de consolidação no setor, fusões e aquisições (M&A) e o desenvolvimento de projetos capazes de atravessar os ciclos de mercado com resiliência.

Performance Comparativa: Cobre vs. Metais Preciosos (janeiro 2025 – 2026)

Embora o cobre tenha demonstrado uma valorização notável, é interessante observar sua performance em comparação com outros metais, especialmente os preciosos, em um período de instabilidade global. Os dados do documento, comparando os preços de janeiro de 2025 com os “números de hoje” (implícitos para 2026), revelam que, em tempos de incerteza, os metais preciosos tendem a ser um porto seguro, registrando valorizações ainda mais acentuadas.

A seguir, um comparativo da performance de alguns metais:

Como podemos observar, enquanto o cobre registrou uma expressiva valorização de mais de 50%, outros metais, especialmente a prata e a platina, tiveram aumentos percentuais ainda mais dramáticos, ultrapassando os 150%. Isso reflete o papel tradicional dos metais preciosos como reserva de valor e refúgio em momentos de instabilidade econômica e geopolítica, quando investidores buscam ativos tangíveis para proteger seu capital. O ouro e o ródio também tiveram desempenhos espetaculares, mostrando a forte corrida por esses ativos em cenários de incerteza.

A valorização do cobre, embora robusta, é mais um reflexo de seus fundamentos de oferta e demanda industrial, impulsionada por tendências seculares de eletrificação e tecnologia, do que uma resposta direta à instabilidade global de curto prazo, como ocorre com os metais preciosos. Sua ascensão é mais um indicativo da “corrida” pelo futuro da energia e da tecnologia do que uma mera fuga para a segurança.

Conclusão

O cobre está no centro de uma transformação global, com sua demanda intrinsecamente ligada ao avanço tecnológico e à transição energética. A confluência de anos de subinvestimento, desafios operacionais em grandes minas e uma demanda crescente e estrutural por eletrificação, data centers e inteligência artificial criou um ambiente de preços elevados que provavelmente persistirá. Enquanto metais preciosos demonstram uma capacidade impressionante de valorização em tempos de instabilidade, o cobre caminha para se tornar um dos pilares da economia do futuro, com sua performance refletindo a urgência em construir um mundo mais eletrificado e conectado. A “corrida dos metais” está apenas começando, e o cobre, com suas qualidades insubstituíveis, certamente manterá seu papel de protagonista nesse cenário dinâmico.

Luis Azevedo, Geólogo, advogado e Presidente da ABPM.

Share This Story, Choose Your Platform!