Artigo | Níquel: um metal essencial na transição energética e na indústria

*Por Luis Maurício Azevedo
O níquel, sem dúvida, é uma das commodities mais críticas e raras na transição energética e possui um papel fundamental em diversas indústrias. Sua versatilidade, seja na forma metálica ou oxidada, o torna valioso e recuperável, sendo um componente chave para o desenvolvimento de tecnologias mais sustentáveis.
Na transição energética, o níquel é indispensável, principalmente na fabricação de baterias de íon-lítio de alto desempenho, que alimentam veículos elétricos (VEs), sistemas de armazenamento de energia renovável e eletrônicos portáteis. A demanda por níquel em baterias é impulsionada pela necessidade de maior densidade de energia, o que permite maior autonomia para veículos e maior capacidade de armazenamento.
Além disso, na indústria, o níquel é amplamente utilizado na produção de aço inoxidável, superligas e outras ligas metálicas devido à sua resistência à corrosão, durabilidade e capacidade de suportar altas temperaturas. Estas características o tornam vital para setores como a construção, aeroespacial, química e petrolífera. A busca por materiais mais eficientes e duráveis, aliada à crescente necessidade de sustentabilidade, solidifica a posição do níquel como um recurso estratégico global.
Diante de sua importância crescente, a compreensão de suas dinâmicas de mercado, especialmente a precificação e a oferta, torna-se crucial.
Agora, mergulhando nas recentes movimentações do mercado, a recente alta dos preços do níquel em janeiro de 2026, com os valores saltando para a faixa de US$ 16.500–US$ 18.000 por tonelada, os níveis mais altos em mais de dois anos. Essa elevação é impulsionada principalmente por uma mudança estratégica da Indonésia, o maior produtor mundial de níquel, que está passando de uma política de maximização da oferta para uma de maximização do valor.
A Mudança Estratégica da Indonésia
A Indonésia, responsável por dois terços da produção global de níquel, está implementando medidas significativas para controlar a oferta e apoiar os preços. Essas medidas incluem:
a) Revisão das Quotas de Mineração: O processo de revisão anual das quotas de mineração foi alterado de três anos para um ano, permitindo um controle mais rigoroso da oferta e dos preços;
b) Proibição de Novas Plantas: O país está proibindo a construção de novas fundições de NPI (Nickel Pig Iron) e plantas de processamento HPAL (High-Pressure Acid Leaching), com o objetivo de limitar a nova produção e direcionar o investimento futuro para agregar valor a partir da produção existente;
c) Fiscalização Ambiental Mais Rigorosa: A fiscalização ambiental e florestal foi intensificada, com aplicação de multas substanciais;
d) Suspensão de Operações: A PT Vale Indonésia, mineradora de níquel, está enfrentando um desafio significativo, pois sua cota de produção de mineração aprovada para 2026 provavelmente será insuficiente para atender à demanda das novas fundições que entrarão em operação ainda este ano, uma vez que a cota concedida, representando apenas cerca de 30% do solicitado, é insuficiente para os compromissos da empresa com as usinas em construção.
A preocupação é que não haverá minério suficiente quando as usinas estiverem concluídas, e a empresa espera receber uma cota adicional. A Vale e seus parceiros estão investindo bilhões de dólares na construção de três usinas de lixiviação ácida de alta pressão (HPAL) para extrair níquel, que é um material crucial para baterias de veículos elétricos.Porém este posicionamente serve como um sinal claro de que os reguladores estão apertando o controle sobre a produção em todo o setor.
Todas essas ações estão sendo interpretadas pelo mercado como uma mudança estrutural de um regime de mercado anteriormente superabastecido para uma gestão ativa da oferta e suporte de preços.
Fica claro para todos que acompanham o mercado de níquel, que grande parte do suposto excedente de níquel era uma “ilusão estatística”. Em 2025, apenas cerca de 55% da capacidade de produção de minério de níquel aprovada na Indonésia foi efetivamente utilizada. Isso significa que centenas de milhões de toneladas de minério de níquel existiam apenas no papel, criando uma percepção distorcida de superávit.
Para combater esse “excedente fantasma”, Jacarta anunciou em outubro de 2025 que encurtaria a validade das quotas de mineração para um ano, anulando as quotas já concedidas para 2026 e 2027. O Ministro de Energia e Recursos Minerais, Bahlil Lahadalia, afirmou em dezembro de 2025 que a produção seria reduzida para garantir preços “racionais”.
A Criação da “ONEC” (OPEC do Níquel)
Ao longo da última década, a Indonésia expandiu massivamente sua mineração e processamento de níquel, visando dominar a participação de mercado global e eliminar concorrentes. Isso resultou no fechamento de minas de níquel em países ocidentais, como Austrália e Nova Caledônia. Agora, a estratégia mudou. A Indonésia está consolidando seu poder monopolista, agindo como uma “ONEC” (Organização das Nações Exportadoras de Níquel), de forma semelhante à OPEP para o petróleo, pronta para ajustar a oferta para defender um determinado nível de preços.
Vários fatores impulsionaram essa mudança de política:Incentivo Fiscal: A Indonésia atualizou seu regime de royalties em abril de 2025 para um sistema ad-valorem, que aumenta os impostos sobre as vendas de níquel quando os preços sobem. Esse esquema proporciona a Jacarta um motivo fiscal direto para manter os preços do níquel mais altos, pois cada aumento de US$1.000/tonelada no preço do níquel aumenta a receita tributária em aproximadamente US$250/tonelada; Grau de Minério Diminuído: Há uma preocupação oficial e corporativa com a queda dos graus de minério no país, após um aumento tão dramático na mineração.
O documento cita o CEO da Canada Nickel, Mark Selby, que explica como o grau marginal do minério caiu de cerca de 2% em 2005 para 1,4% atualmente, tornando projetos de sulfeto de alto teor fora da Indonésia estrategicamente importantes; Déficit Orçamentário Crescente: O déficit orçamentário da Indonésia se ampliou. Com a queda dos preços do níquel entre 2022 e 2025, o país viu ressurgir seus déficits comerciais e em conta corrente históricos.
A defesa dos preços do níquel torna-se, portanto, fiscalmente racional; Demanda por Baterias Elétricas Desacelerando: Embora a demanda por veículos elétricos (VEs) ainda esteja crescendo globalmente, o ritmo diminuiu em regiões-chave como Europa, EUA e China.
Além disso, a participação do níquel em baterias elétricas tem diminuído, com fabricantes mudando de químicas NMC (níquel-manganês-cobalto-óxido) para LFP (fosfato de ferro-lítio).
No entanto, apesar dessa desaceleração, o crescimento da demanda por VEs ainda é previsto para a próxima década, e a disciplina de oferta da Indonésia é vista como crucial para sustentar os preços.

As Perspectivas para os Preços do Níquel
A resposta dos preços do níquel às intervenções da Indonésia foi imediata. O Secretário-Geral da APNI (Associação Indonésia de Mineradores de Níquel), General Meidy Katrin Lengkey, sugeriu que os preços podem chegar a US$19.000/tonelada. O documento não faz projeções oficiais, mas sugere que os preços poderiam testar US$25.000 por tonelada em um cenário de aperto da oferta nos próximos anos, com uma faixa de compensação mais defensável entre US$20.000 e US$22.000/tonelada.
A S&P Global Energy CERA prevê que o corte na produção da Indonésia pode levar o mercado de níquel de um excedente para um déficit ainda nesta década. A curva de custos também se deslocou para cima devido à diminuição dos graus de minério indonésios e ao aumento dos custos de capital e operacionais em projetos HPAL. Acima de US$20.000, algumas operações australianas de níquel podem se tornar financeiramente viáveis novamente.
Uma possível alta nos preços, impulsionada pelos cortes de oferta indonésios, não está isenta de riscos. Analistas alertam para a pressão de partes interessadas da indústria para reverter ou suavizar as reduções de quotas. Se os reguladores indonésios recuarem nos limites de produção, a narrativa de aperto pode enfraquecer e os preços podem retroceder.
Projetos de Níquel que Podem Entrar em Operação com Altas dos Preços
A medida que a oferta marginal indonésia diminui em grau e os custos aumentam, projetos de sulfeto de alta tonelagem e baixo carbono em jurisdições de Nível 1 (Tier-1) tornam-se essenciais. Isso inclui:
1. Lifezone Metals em Kabanga, Tanzânia: Um projeto de sulfeto de níquel de longa duração.
2. FPX Nickel no Canadá: Um projeto notável que se destaca entre os poucos que conseguiram progredir em um ambiente de preços baixos.
3. Canada Nickel (Projeto Crawford) em Ontário, Canadá: Descrito como um dos maiores recursos de sulfeto de níquel globalmente. É diferenciado por sua escala e escopo, sendo formalmente designado pelo Escritório de Grandes Projetos do Canadá e considerado um projeto que “ancorará a liderança global do Canadá em materiais industriais limpos”, conforme o Primeiro-Ministro Mark Carney. A empresa possui sete recursos adicionais de níquel em conformidade com NI 43-101 no Distrito de Timmins.
4. Operações de Níquel Australianas: O documento sugere que, com preços acima de US$20.000 por tonelada, algumas operações de níquel australianas tornam-se financeiramente viáveis novamente.
5. Operações de Níquel Brasileiras: 1) Centaurus Metals, 2) Vermelho projeto de alto teor e excepcional logística que mesmos de níquel lateritico foi adquirido pelo Grupo Smart Níquel e que pode avançar rapidamente dada tradição e track record do grupos ali associados (Smart Holding e FFA Holding), 3) Horizonte Minerals Plc (Projeto de Níquel Araguaia, Brasil): esta empresa garantiu contratos de compra de energia de longo prazo para seu Projeto de Níquel Araguaia, no Brasil. A construção está em andamento, e a produção estava prevista para iniciar no primeiro trimestre de 2024, mas num complicado processo de overrun foi paralisado e acha-se em recuperação judicial.
Conclusão
Em resumo, o mercado de níquel está reprecificando não apenas os cortes na oferta, mas também a constatação de que grande parte do excedente nunca existiu de fato. A Indonésia consolidou o controle da oferta de níquel e agora está usando essa alavancagem para defender o valor, priorizando a disciplina de preços em detrimento da maximização do volume.
Apesar dos riscos, a Indonésia está trabalhando para estabelecer um piso para os preços do níquel, indicando uma trajetória de alta para os valores. Contudo o risco não se concentra em projetos específicos, mas sim em tentar construir ou operar projetos que tenham um custo de produção elevado, conduzido por grupos sem a devida experiencia ou track record, seja no país e na comodity, tentando desenvolver minas financeiramente insustentáveis em um cenário de preços baixos, como vimos acontecer no Brasil em 2025.
*Luis Maurício Azevedo, presidente do Conselho da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração (ABPM).
Leia também na revista Mineração & Sustentabilidade: https://revistamineracao.com.br/2026/01/22/niquel-um-metal-essencial-na-transicao-energetica-e-na-industria-entendendo-a-dinamica-atual-de-precos/





