Corrida global por minerais críticos impulsiona debate sobre financiamento e segurança jurídica no Brasil

Durante o Simexmin, a Rede Invest Mining promoveu encontro que reuniu representantes do setor mineral, mercado financeiro para discutir financiamento, segurança regulatória e o papel do Brasil na cadeia global de minerais estratégicos para a transição energética.
Brasil reúne projetos de alta qualidade, instituições consolidadas e ambiente competitivo capaz de atrair investimentos para o setor.
O avanço da demanda global por minerais críticos e estratégicos e os desafios para ampliar o financiamento de projetos de mineração no Brasil estiveram no centro dos debates promovidos pela rede Invest Mining na terça-feira durante o Simexmin 2026. Ao apresentar a iniciativa, o coordenador Miguel Nery afirmou que a rede — fundada pela ABPM, ADIMB e IBRAM — atua para fortalecer o ambiente de negócios da mineração brasileira por meio da articulação entre governo, empresas, investidores e entidades do setor.
“O papel do Invest Mining é criar as melhores condições para atrair investimento e melhorar o ambiente da mineração no nosso país”, destacou Nery. Segundo ele, o foco está principalmente nas chamadas junior companies, empresas de menor porte que enfrentam dificuldades de acesso ao capital para seus projetos.
A nova janela de oportunidades
Oswaldo Dalla Torre, da Tozzini Freire Advogados, que moderou o primeiro painel, destacou o cenário favorável da mineração brasileira diante do aumento global da demanda por recursos minerais. Segundo ele, o país reúne projetos de alta qualidade, instituições consolidadas e um ambiente competitivo capaz de atrair investimentos em um momento estratégico para o setor. “A gente está em um momento em que o recurso financeiro está correndo atrás do recurso mineral.Temos que aproveitar esse momento”, afirmou.
Flávio Mota, chefe do Departamento de Indústria de Base Extrativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) apresentou os resultados da chamada pública lançada pela instituição no final de 2024 para projetos voltados à transformação mineral. A expectativa inicial era atrair R$5 bilhões em propostas, mas o programa recebeu 124 planos de negócio, que juntos somam R$85 bilhões, dos quais 56 foram selecionados, chegando a R$46 bilhões em investimentos previstos. Minas Gerais e Bahia concentram parte significativa dos projetos apresentados.
link video: XII SIMEXMIN – 2026 | Rede Invest Mining apresenta Workshop de Financiamento para o Setor Mineral
Segundo Flávio Mota, o movimento também marca uma aproximação maior do banco com empresas juniores de mineração. “O BNDES, que estava muito próximo dos grandes atores do setor, passa a se aproximar das junior mining companies, que são as principais detentoras dos direitos minerários sobre ativos de minerais críticos e estratégicos”, explicou.
Entre as iniciativas destacadas pelo executivo do BNDES está o FIP Mineral, estruturado em parceria com a Vale para apoiar pequenas e médias mineradoras ligadas a minerais críticos, estratégicos e à segurança alimentar.

BNDES se aproximou das junior companies por meio de programas como o FIP, afirmou Flavio Mota.
Geopolítica, regulação e percepção de risco
Mota também ressaltou a atualização da Política Socioambiental e Climática para a Mineração do banco, que passou a incorporar critérios climáticos às análises de projetos do setor. Ele sintetizou os principais desafios para ampliar o fluxo de investimentos na mineração brasileira em três eixos: mercado, geopolítica e questões socioambientais e climáticas.
No campo geopolítico, Flávio Mota destacou o posicionamento estratégico do Brasil diante da disputa internacional pelo controle das cadeias de minerais críticos. “Estamos no meio de uma briga de gigantes, mas isso não nos torna pequenos. Detemos grandes reservas minerais, e essa rigidez locacional coloca o Brasil como ator importante na equação geopolítica internacional”, afirmou.
Para Eduardo Cardoso, chefe de investimentos e sócio da Ore Investments, o Brasil possui forte vocação mineral, mas ainda enfrenta desafios relacionados à previsibilidade regulatória e aos prazos de desenvolvimento dos projetos. “O Brasil tem a mineração no seu DNA”, afirmou. Segundo ele, atrasos em licenciamentos eleva a percepção de risco e afasta investidores, embora o setor continue oferecendo oportunidades relevantes. “A gente continua 100% alocado em mineração. As ineficiências geram muita oportunidade”, destacou.
Representantes do mercado financeiro também defenderam maior previsibilidade regulatória e segurança jurídica como fatores decisivos para a ampliação do investimento em projetos minerais no país. Para Ricardo Fonseca, da Prisma Capital, atrasos em processos de licenciamento impactam diretamente a atratividade dos empreendimentos. “Quando temos um atraso de 1, 2, 3 anos no licenciamento, impacta a taxa interna de retorno mínima esperada. E isso afasta o investidor estrangeiro do empreendedor doméstico”, avaliou.
Fonseca também chamou atenção para a necessidade de qualificação técnica dos projetos apresentados ao mercado. “Quando o projeto chega na nossa mesa, um projeto bem feito em geologia, engenharia, parte ambiental, gera impacto muito positivo e facilita a decisão de investimento. Não adianta enfeitar a noiva se o projeto não está bem desenvolvido”, afirmou.
Cases de acesso ao capital
Ao moderar o segundo painel que reuniu representantes de mineradoras, José Ricardo Pisani da Comissão Brasileira de Recursos e Reservas (CBRR) destacou a importância da resiliência e da capacidade de adaptação no desenvolvimento de projetos minerais. Ao comentar mudanças de cenário no mercado e decisões empresariais tomadas em momentos de baixa, Pisani avalia que oportunidades podem surgir justamente em períodos de maior incerteza. “Muita gente do setor tem que ter essa resiliência também. Acho que faz parte de cada um de nós que já comandou projeto e empresa”, afirmou.

Resiliência e capacidade de adaptação estratégica são elementos chave no desenvolvimento de projetos no setor, destacou o segundo painel.
Marco Túlio da Fides Mining citou os desafios enfrentados pelas juniors companies no acesso ao mercado de capitais. “Representamos mais de 90% das empresas de mineração atuantes no Brasil, mas não temos a mesma visibilidade das listadas”, disse.
O country manager da Bahia Nickel, Elton Pereira, destacou os desafios enfrentados para viabilizar investimentos em projetos minerais em períodos de baixa do mercado internacional de níquel. Segundo ele, a experiência acumulada no setor foi fundamental para aproximar investidores do projeto e traduzir aspectos técnicos para o mercado financeiro.
“O investidor decide colocar o seu dinheiro em um projeto que vai ficar pronto daqui a cinco anos e operar por mais 20 ou 30 anos, mas a decisão é tomada com o preço de agora”, afirmou.
Já Luís Albano Tondo da Jaguar Mining ressaltou a importância da comunicação com investidores para o crescimento sustentável das operações. “Não basta ter um bom projeto. É preciso saber comunicar com os investidores”, resumiu.
Previsibilidade regulatória
Klaus Petersen, executivo da Viridis Mining and Minerals comentou o avanço do projeto de terras raras da companhia em Poços de Caldas (MG) desenvolvido em menos de três anos. Segundo ele, a empresa também se tornou uma das poucas mineradoras pré-operacionais a captar capital brasileiro para projetos do segmento. “Temos orgulho de estar abrindo as portas, com fundos privados começando a avaliar projetos desse tipo e a pegar o risco em equity”, afirmou.
O debate também abordou a tramitação do projeto de lei relacionado aos minerais críticos e estratégicos, atualmente em discussão no Senado. Representantes do setor defenderam clareza regulatória e previsibilidade para garantir segurança aos investimentos de longo prazo. “O único risco que vejo hoje no nosso projeto é uma ação desastrosa que assuste o mercado. Soberania é importante e todos os países têm. Mas precisamos de previsibilidade”, afirmou Klaus Petersen.

Cerca de 200 profissionais do setores de mineração e do mercado financeiro estiveram presentes no workshop promovido pela Rede Invest Mining
Os participantes do encontro convergiram na avaliação de que o Brasil vive uma janela estratégica para ampliar investimentos em mineração e consolidar sua posição na cadeia global de minerais críticos. No entanto, é preciso previsibilidade e segurança jurídica.
“Existe uma palavra central para o setor mineral: previsibilidade. E esse ainda é um ponto que, na nossa avaliação, não está suficientemente sedimentado no projeto em discussão, que agora segue para o Senado. Hoje, o maior desafio não é necessariamente a complexidade do licenciamento ambiental, mas a falta de clareza e previsibilidade nos processos. O setor sabe operar dentro de regras conhecidas, com critérios claros. O problema surge quando se sai de um ambiente regulatório previsível para outro em que não há segurança sobre prazos, etapas ou desdobramentos do processo, resume Marcos André Gonçalves, presidente do Conselho Superior da ADIMB.
Miguel Nery disse que o evento atendeu as expectativas com a presença de profissionais que atuam no setor de mineração e do mercado financeiro. Ele comentou ainda que a Rede Invest Mining pretende realizar outros encontros ao longo do ano, e confirmou que em 20 de outubro será realizada a terceira edição do Invest Mining Summit, no auditório Baleia, na Faria Lima, em São Paulo.

Miguel Nery confirmou que em 20 de outubro será realizada a terceira edição do Invest Mining Summit, no auditório Baleia, na Faria Lima, em São Paulo.





